A Paramount apostou alto e, depois de sucessivos atrasos desde 2018, lançou em fevereiro de 2024 a primeira cinebiografia oficial de Bob Marley. Dirigida por Reinaldo Marcus Green (King Richard), produzida pela Plan B de Brad Pitt e supervisionada de perto por Rita e Ziggy Marley, a produção era vendida como “filme‑legado” – aquele que sela, em definitivo, a narrativa que a família quer deixar para a História.
O recorte: dois anos que valem por trinta?
Em vez de percorrer os 36 anos de vida do reggae man, o roteiro se concentra em um período curto – de 1976 a 1978 – marcados:
- Pelo atentado a tiros sofrido em dezembro de 1976, em plena crise política jamaicana;
- Pelo exílio em Londres e a gravação de Exodus;
- Pelo retorno à Jamaica para o One Love Peace Concert, em 1978.
A ideia era aprofundar, mas o volume de temas (política, Rastafári, ganância da indústria, paz mundial…) vira um liquidificador. Resultado: tudo soa superficial.
Carisma não se copia em laboratório
Kingsley Ben‑Adir (One Night in Miami) encara a missão impossível de “virar” Bob Marley. Ele entrega gestos ensaiados, sotaque esforçado e até bom timbre – mas não a leveza natural do arquivo original exibido nos créditos finais. Quando essa comparação direta aparece na tela, a mágica some. O espectador sente que está vendo uma boa imitação, não o homem de verdade.
Rastafári e política: tratados como rodapé
O filme até menciona a disputa partidária que esquentou a Jamaica no fim dos 70, mas logo simplifica tudo a “gangues rivais”. O Rastafári, essência da vida de Marley, vira pano de fundo estético: dreadlocks, algumas expressões em patois e pronto. Quem não conhece o movimento sai do cinema pensando que é só um “estilo de vida alternativo”. Falta contexto, sobra frase de autoajuda.
Rita Marley merecia mais
Lashana Lynch traz força à tela, mas o roteiro mal lhe dá espaço. Relações, apelidos, afetos: tudo jogado sem desenvolvimento. Dá pena ver a parceira criativa e emocional de Bob reduzida a coadjuvante elegante.
Som que vibra, narrativa que desafina
- Shows: bem produzidos, climatizados, mas nada além do básico das cinebiografias recentes.
- Trilha: clássicos aparecem, mas quase sempre para sublinhar (de forma óbvia) o que o diálogo já explicou.
- Flashbacks: filtro dourado que parece comercial de perfume — belo, porém vazio.
Pra quem é (e pra quem não é)
| Público | Vai gostar? | Por quê? |
|---|---|---|
| Fãs casuais de Marley | Talvez | Ouvir os hits em tela grande sempre empolga. |
| Colecionadores de cinebiografias musicais | Pouco | Falta ousadia; parece checklist. |
| Quem quer entender política jamaicana ou Rastafári | Não | Quase nenhum contexto real. |
| Cinéfilos em busca de drama humano profundo | Não | Personagens secundários inexistem. |
Veredicto da Rádio Interessante
Nota: 4/10
Mais um título que surfa a onda das cinebiografias mas não tem fôlego para sair da rebentação. Entre o marketing de “filme‑legado” e a tentativa de copiar o carisma inimitável de Marley, One Love termina como obra morna – daqueles lançamentos de começo de ano que a gente esquece antes do próximo hit chegar ao streaming.

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