Se você der uma olhada no Brasil dos anos 1970, vai encontrar um dos maiores paradoxos da nossa história cultural. De um lado, o país vivia o auge do regime militar, um período marcado por um forte discurso moralista, onde a censura vigiava jornais, cortava músicas e fechava espetáculos sob o pretexto de proteger os bons costumes. Do outro lado, as salas de cinema estavam completamente lotadas por uma indústria multimilionária que faturava alto com roteiros simples e muita nudez: a era da pornochanchada.
Filmes desse gênero conseguiam arrastar cerca de 3 milhões de pessoas por produção. O mais curioso é perceber que o próprio Estado, que se dizia defensor da moral, não apenas tolerava esse fenômeno, mas também o incentivava. Para entender como essa engrenagem funcionou e salvou o setor audiovisual da época, precisamos voltar um pouco no tempo.
Da malandragem carioca ao domínio do cinema falado
O cinema no Brasil começou a ganhar força no Rio de Janeiro ainda no final do século XIX, muito influenciado pelo charme e pelas tendências de Paris. No início, figuras como Afonso Segreto usavam a câmera para filmar o cotidiano da cidade e exibir essas imagens à noite para o próprio público se assistir na tela, uma espécie de entretenimento popular baseado na curiosidade. Logo depois, o país descobriu o sucesso das reconstituições de crimes reais e, mais tarde, o fenômeno das chanchadas da Atlântida Cinematográfica.
As chanchadas eram comédias popularescas e carnavalescas que faziam paródias dos grandes sucessos de Hollywood e traziam astros como Grande Otelo e Oscarito. Esse modelo de humor ingênuo e de forte apelo popular funcionou muito bem até a chegada da televisão nos anos 1950, que acabou esvaziando as salas e forçando o cinema nacional a buscar novas fórmulas para sobreviver.
A Boca do Lixo e o nascimento do Gary Gary
Quando o regime militar impôs uma cota de tela obrigatória para obrigar os cinemas a exibirem um número mínimo de produções nacionais sob pena de multa, os exibidores se viram em um beco sem saída. A salvação veio da Boca do Lixo, uma região no centro de São Paulo que concentrava distribuidoras e produtores independentes. Inspirados pelo sucesso de filmes eróticos italianos e por produções nacionais como Os Paqueras, os realizadores paulistas perceberam que o erotismo leve misturado com comédia era uma mina de ouro.
Nascia a pornochanchada: produções baratas, feitas em tempo recorde e que misturavam o espírito das antigas comédias com a sensualidade das vedetes e novas estrelas da época. Filmes como A Viúva Virgem e A Super Fêmea — que revelou Vera Fischer — transformaram-se em fenômenos absolutos de bilheteria.
O pacto velado entre a censura e o lucro
A pergunta inevitável é: por que a ditadura militar permitia tanta nudez na tela enquanto censurava política e comportamento no restante da sociedade? Existiam dois motivos principais. O primeiro era econômico: essas produções sustentavam o mercado de exibição, cumpriam as cotas estatais e geravam altos impostos para o governo. O segundo motivo era estratégico e social. Os censores aplicavam uma regra rígida de tempo para a exibição de cenas explícitas para manter a fachada dos bons costumes, mas faziam vista grossa para o conteúdo erótico porque entendiam que o público, enquanto estivesse dentro do cinema focado no entretenimento, não estaria nas ruas protestando contra o regime.
A era de ouro do gênero começou a ruir no final dos anos 1980 com a chegada da tecnologia do videocassete, que permitia assistir a conteúdos em casa, e com a popularização de produções de pornografia explícita e gráfica. O golpe final na indústria ocorreu no início dos anos 1990, quando o governo Collor desmantelou a Embrafilme e o Ministério da Cultura, mergulhando o setor em uma grave recessão. Apesar de ter sido um período que muitos preferem esquecer, a pornochanchada sustentou o ecossistema do cinema brasileiro por mais de uma década e deixou uma marca profunda na economia criativa nacional.
Comentários